Peço desculpas pelas raras postagens, neste Dezembro. Estou tentando pensar mais em atividades para o início do ano letivo que para esse mês de Natal, afinal de contas, o ano letivo já se foi e mesmo os projetos de Natal pelas escolas Brasil afora já tiveram sua culminância.
Escrevi um texto hoje que não iria postar, porém, pode servir para reflexão, para leitura da situação psicológica de nossos alunos que conciliam estudo e trabalho, arduamente. E esta reflexão pode ser útil na adaptação de métodos e técnicas que auxiliem ou promovam o aprendizado ou melhor adaptação deste aluno à escola, assim como meios de garantir sua permanência nela. Refletindo sobre a realidade de nossos alunos poderemos conseguir fazer com que a escola se distancie menos dela, e assim ele sinta-se inserido. Seus medos, suas dores, seus sonhos, seus problemas não ficam de modo mágico da porta para fora da sala, suas angústias não obedecem a uma ordem silenciosa de "fiquem aí sentadas na carteira ao lado e só voltem ao âmago da minha alma quando eu terminar de pensar as respostas a estas vinte questões que copiei".
Espero que o texto sirva para reflexão, em reuniões, da situação principalmente de nossos alunos que sustentam-se e ajudam as famílias vendendo nos sinais. O sinal é dúbio, é odiado por quem espera dentro do carro, esperançoso para quem vende do lado de fora. O sinal é paradoxo. Assim como é paradoxo a vida dos alunos na periferia e as aulas que ministramos a eles, na escola.

Menino trabalha vendendo balas em sinal de trânsito no Rio de Janeiro
Faces do dia
O trânsito louco, de tudo um pouco: anjos e demônios, cada qual em seu próprio mal.
Mãos. Estendidas ao volante, guiando a vida.
Mãos. Estendidas aos que guiam, implorando vida.
Só um prato de comida!
“Ei, moço, me compra um doce?”
O furor da ida, o cansaço da volta, tudo louco, sem medida.
Sem saída,
Sem saída,
Sem saída.
Sol se pondo no horizonte.
Rush, beco sem saída.
Sem saída às mãos que guiam,
Sem saída às mãos que imploram.
Dia indo, sem comida.
Sonhos aos ares,
Desejo de chegar.
Saudade do encontro, do aconchego do lar.
“Olha a água mineral”
“Biscoito Globo doce ou com sal”
Isopor pesado às costas, fardo do compromisso atado à alma.
Relógios.
Calendários.
Quase natal.
Comércio.
Quase noite.
Fim de tarde pra esperança exposta no gesto.
Contar moedas, desamassar as cédulas, sobreviver, sonhar.
Pão com sonhos.
O dia de amanhã.
Fim de caos pra o que, atônito, guiava em meio ao furacão extremo, salada dos que iam e vinham, sem sonhos, com sonhos, pesadelos, pesadelo!
Porta, TV, Jornal ralo, abraço, festa.
“Trouxe bala, pai?”
“Não deu tempo de comprar”
“Estou cansado”
Arroz com feijão e projetos.
O dia de amanhã.
O dia de amanhã...
O dia de amanhã...
O dia.
Dia.
Dia?
Amanhã.
Amanhã.
Amanhã!
Amanhã?
E raia a manhã com sonhos.
Raia a manhã com veias.
Raia a manhã que é tudo, menos o dia de amanhã,
Aquele de sonhos sem medidas,
Aquele mesmo dos projetos insatisfeitos e insaciáveis.
É.
“Moço, me compra uma bala?”
“Biscoito Globo a 3.00!!!”
Furor, redemoinho, suor, relógios.
Pranto que urge n’alma,
Pranto engolido.
Sorriso sonhando ingenuidade calma,
Sorriso esquecido.
É o dia se diluindo em pressa.
É o cronômetro ordinário diluindo o dia.
E nada mais importa que reger o dia.
“Canta afinado!”
“Mais um semitom!”
Que enfadonho.
Pobre dia.
Pobres diabos.
E o vento dá nas paragens ao lado da estrada.
E o azul do céu se dilui em matizes inimagináveis.
E um sol de esplendor tinge as nuvens, sem pincel.
Flores teimosas despontam aqui e ali,
Bois pastam na vagarosidade sem pressa da ausência de ponteiros.
Mas o sinal abriu!
O dia de hoje.
Dia?
Hoje!
Profª Elizabeth (Liza)



.jpg)
.png)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.png)
.jpg)
.jpg)





