parecida. Gostaria de compartilhá-lo, apenas para que sirva de incentivo a todos os que desejam ajudar, procurando postos de doação espalhados pelo país. Durante o percurso, tive todo o tempo a sensação de que estava num filme, e o que escrevi não é de fato puramente poético ou tentativa de rima, é real. Tive a nítida sensação de que não estava acontecendo e isso me incomodou, pois me considero uma pessoa capaz de enxergar a verdade à minha frente. Peço que colaborem, a situação é realmente grave. Considero natural a sensação de irrealidade, visto que nunca presenciei tais acontecimentos. Precisamos pedir a Deus por aquelas vidas. Liza

A catástofre é naturalmente natural na TV,
De preferência num quintal distante da nossa janela.
É inimiga do abraço.
Do olhar cativo.
Boa, se a olho de cima.
Se a distância existente entre nós dois me permite tal feito.
Segura, rio na cara da catástrofe.
Mas quando ela se arrasta, rapidamente lenta e pegajosa,
com tudo e todos atrás de si,
Então deixa de ser espetáculo
E passa a ser filme.
De que gênero dependerá da natureza do espectador:
aventura, comédia, terror...
Pode ser de tantos gêneros, Deus meu!
Gostaria que fosse sempre filme de terror
independente de passar ou não na tela da nossa janela,
No fundo dos nossos quintais,
Arrancasse ou não nossos varais.
Gostaria que a catástrofe fosse catastrófica todos os dias.
E que a pudéssemos antever.
Porque ainda não consigo imaginar um pulmão
respirando terra
e continuar respirando naturalmente,
sem a incômoda sensação.
De preferência, Deus meu,
que a sensação fosse de ser real!
Que não houvesse toda aquela sincronia
Nem curiosos olhares incompatíveis com a cena.
E a curiosidade humana fosse guardada
Para a cura da aids.
Para a invenção revolucionária.
Para aquele espetáculo macabro, não!
De preferência, que eu pudesse reorganizar as cenas
e fazer com que elas fossem passado e no passado,
ainda a pudéssemos evitar.
De preferência que eu conseguisse enxergar,
mas fecho ainda os olhos para não ver,
Porque a dor ainda me dilacera.
E sinto-me assim, como se numa imensa, grandiosa
tela de Dalí.
Porque ainda não consigo achar que foi real?
Ainda sou egoísta ao ponto de achar que foi um pesadelo?
Não foi para quem partiu.
Sei que as cenas se sucedem de relance
e não mais que num instante são milhares de estilhaços
diante do meu coração,
Prestes a parti-lo de tal modo que prefiro me afastar e desaparecer?
Seria bom, seria tão bom que tivesse sido apenas sonho, pesadelo,
filme de terror.
Para mim e para eles.
Não precisaríamos sentir.
Por que sentir precisa ser sempre tão carne viva?
Sou tão inútil.
Somos todos tão inúteis.
Nosso socorro chega sempre tão atrasado...
Resta aprendermos a entregar.
A entrega absoluta,
Aquela que não ensaiamos nunca.
Do fechar os olhos e dizer: Estive aqui, isso me foi suficiente.
Despeço-me com honradez.
Essa é mais uma das cenas que não aprendemos a suportar.
Mãe-natureza, que preço alto!
Bom seria que fosse apenas um filme.
Fosse qual fosse o gênero de mau gosto.
Liza (Profª Elizabeth)